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Comemorando os 500 anos de João Calvino, o teólogo da Reforma, este é um blog dedicado a resumir e comentar as Instituras da Religião Cristã, obra máxima do reformador de Genebra. Que ele seja útil à comunidade, seguindo a mesma intenção de Calvino ao escrever seus livros.

"Este tem sido meu propósito: preparar e instruir de tal modo os candidatos à sagrada teologia, para a leitura da divina Palavra, que não só lhe tenham fácil acesso, mas ainda possam nesta escalada avançar sem tropeços."

Esse blog está sendo desativado. Visite-nos em www.joaocalvino.net

Interpretando a Lei [ 2.8.8-10 ]

Nas próximas seções, Calvino explica sua interpretação dos mandamentos. Primeiramente, ele alerta para não irmos além do que os mandamentos dizem. Isso não significa, entretando, que cada mandamento não tenha seus desdobramentos (acabamos de ver isso com Jesus explicando o significado da Lei). Seu princípio é bastante simples.

"Deve-se examinar em cada mandamento de que assunto se trata; em seguida, deve buscar-se seu propósito, até que descubramos o que propriamente o Legislador certifique aí agradar-lhe ou desagradar-lhe. Por fim, disto mesmo se deve extrair um arrazoado em contrário, deste modo: se isto agrada a Deus, o contrário lhe desagrada; se isto lhe desagrada, o contrário lhe agrada; se ele ordena isto, então proíbe o contrário; se proíbe isto, então ordena o contrário." (2.8.8, p.136)

O reformador entende que podemos ir um pouco além das meras palavras, analisando ações que não estão explícitas em certas ordens, mas que podem ser negadas ou aceitas, baseando-se em um único mandamento. Ele exemplifica esse entendimento com alguns dos preceitos das tábuas da Lei. Destacamos aqui sua interpretação do sexto mandamento.

"Neste mandamento, 'Não matarás' [Ex 20.13; Dt 5.17], o senso comum dos homens nada mais vislumbrará que se deve abster de todo malefício e do desejo de fazer o mal. Eu afirmo que, além disso, nele se contém que conservemos a vida do próximo com os recursos com que pudermos. E para que não fale sem razão, assim o confirmo: Deus proíbe que se fira ou se faça violência a um irmão injustamente, porque ele quer que sua vida nos seja cara e preciosa. Portanto, requer, ao mesmo tempo, aquelas efusões de amor que podem ser conferidas à sua preservação." (2.8.9, p.136)

O reformador entende que cada mandamento tem seu propósito. Com base nesse propósito (que se preserve a vida humana, por exemplo), poderemos entender o que é ordenado e o que é proibido. Além disso, ele argumenta, as ordens apresentadas indicam qual a violação mais grave, a fim de que entendamos que os erros correlatos estão no mesmo gênero do preceito maior.

"Visto que a carne sempre diligencia por diluir e revestir de ilusórios pretextos a fealdade do pecado, salvo onde ela é palpável, Deus propôs à guisa de exemplo o que era mais abominável e mais execrando em cada gênero de transgressão, ao ouvirmos o que também enchesse de temor nossa sensibilidade, a fim de que à alma nos imprimisse maior repulsa de todo e qualquer pecado." (2.8.10, p.137)

Novamente, o exemplo do sexto mandamento nos será útil para entendermos esse princípio de interpretação.

"Por exemplo, quando são referidos por seus meros designativos, a ira e o ódio não são julgados males especialmente execrandos. Quando, porém, se nos proíbem sob o nome de homicídio, entendemos melhor em quão grande abominação incorrem diante de Deus, de cuja palavra são relegados à categoria de tão horrenda ignomínia. E nós próprios, movidos por seu juízo, costumamos pesar melhor a gravidade dos delitos que antes nos pareciam leves." (idem)

Que levemos em consideração essas verdades. Não podemos nos esconder detrás de delitos que parecem menores aos nossos olhos. Embora exista diferença na gravidade de cada erro, ainda assim todo pecado é uma grave ofensa contra o Criador. Que esses alertas nos ajudem a crescer cada dia mais em piedade.
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Exterior e interior [ 2.8.6-7 ]

Um grave erro cometido pelos religiosos na época de Jesus (e até hoje) era a hipocrisia de observar os mandamentos de forma apenas exterior. Nas próximas seções Calvino argumenta que os mandamentos devem nos levar à santidade interior, e não apenas em ações visíveis. A comparação que o reformado faz é entre juízes terrenos, que não podem acusar alguém por intenções não-consumadas, e Deus, que vê o coração do ser humano.

"A jurisdição do legislador mortal não se estende senão à conduta externa, não se lhe violam as ordenanças senão mediante crimes consumados... Ora, uma vez que ele é um legislador espiritual, fala à alma não menos que ao corpo. Mas, o assassínio da alma é a ira e o ódio; o furto, a cobiça má e a avareza; a fornicação, a concupiscência." (2.8.6, p.134)

A Lei de Deus, como já dissemos, é a expressão do caráter do Senhor Jesus. Assim, seus seguidores não podem se enganar, limitando sua piedade a apenas o cumprimento de normas vazias. Antes, todo o coração deve estar cheio do Espírito. Não podemos ser hipócritas como aqueles que pensam não ter as mentes sondadas pelo Santo Juíz.

"Ouvem: 'Não matarás; não adulterarás; não furtarás.' Não desembainham a espada para matança; não ajuntam seus corpos às meretrizes; não lançam as mãos aos bens alheios. Tudo isso está bem até aqui. Mas, de toda a alma, respiram mortes, abrasam-se de volúpia; olham de esguelha para os bens de todos e os devoram de cobiça. Já está, na verdade, ausente o que era o ponto principal da lei." (idem)

A Lei exige pureza tanto nos atos como na mente, na alma, na vontade. Isto não é uma doutrina de Calvino, mas algo ensinado pelo próprio Cristo. Se observarmos parte do seu discurso no Sermão do Monte (Mt 5-7), veremos o Salvador corrigindo a hipocrisia dos fariseus.

"Estamos seguindo a Cristo, o melhor intérprete da lei. Como, pois, os fariseus imbuíram o povo de pervertida opinião, isto é, que cumpria cabalmente a lei quem, por ato externo, nada tivesse praticado contra a lei, Cristo condena este perigosíssimo erro e declara que é adultério a mera olhadela impudica para a mulher [Mt 5.28]." (2.8.7, p.134)

Calvino, por fim, corrige alguma possível falha de entendimento. Jesus não veio superar a antiga Lei, mas colocar aqueles que dizem praticá-la nos eixos novamente. Os fiéis que seguiam à Lei no Antigo Testamento não seguiam uma versão inferior dos mandamentos. Pelo contrário, eles entenderam o que eles significavam e os colocaram em prática. Que sejamos como esses exemplos.

"Esse popularizado axioma acerca da perfeição da lei do evangelho: que ela supera, por ampla distância, a antiga lei, o que, de muitos modos, é assaz pemicioso. Ora, do próprio Moisés, quando mais adiante coligirmos a suma de seus preceitos, evidenciar-se-á de quão indigna afronta esta maneira de ver tisna a lei divina. Insinua ela que a santidade dos patriarcas, na verdade, não se distanciou muito da hipocrisia e nos afasta daquela única e perpétua norma de justiça." (2.8.7, p.135)
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Contra os preceitos humanos [ 2.8.4-5 ]

O tema das recompensas e castigos da Lei é tratado novamente por Calvino, dessa vez sem a polêmica do livre-arbítrio por trás. Seu entendimento sobre o assunto, porém, é o mesmo - elas nos servem como uma motivação para a obediência dos preceitos do Senhor. Se pelo amor à justiça não somos plenamente guiados à santidade, que essas recompensas possam atrair nosso coração à Lei e as maldições nos afastem da injustiça.

"Nas penalidades atesta-se, de fato, a suprema pureza de Deus, que não pode tolerar a iniqüidade; nas promessas, porém, além do supremo amor para com a justiça, que não se permite defraudar do devido galardão, atesta-se-lhe também a admirável benignidade... Deus se afasta de seu direito quando oferece recompensas por nossos atos de obediência." (2.8.4, p.132)

Para Calvino, a Lei nos pede obediência integral. Isso significa não apenas satisfazer todos os mandamentos, mas também nada acrescentar a eles. Não cabe ao homem decidir o que é verdadeira justiça e como agradar a Deus, pois isso nos é dado pelo próprio Criador.

"Os homens sempre se comprazem efusivamente em engendrar forma de alcançar justiça à parte da Palavra de Deus. Daí, entre as que se contam comumente como boas obras, lugar mais reduzido ocupam os preceitos da lei, aquela incontável multidão de preceitos humanos ocupando quase todo o espaço... O Senhor vindicou à sua lei a absoluta doutrina da justiça. Entretanto, não contentes com ela, mourejamos prodigiosamente por inventar e forjar boas obras, umas por sobre as outras." (2.8.5, p.132s)

O reformador critica duramente esse tipo de atitude. Normalmente aqueles que criam esses preceitos humanos também se enveredam pelo caminho do farisaísmo, desprezando aqueles que não praticam suas tradições e tentando alcançar favores de Deus. Calvino chama o ensino de novos mandamentos de profanação.

"A lei nos foi divinamente outorgada para nos ensinar a justiça perfeita; que outra justiça nela não se ensina, senão aquela que se exige segundo o requisito da vontade divina; que, portanto, em vão se tentam novas modalidades de obras para ganhar-se o favor de Deus, cujo culto genuíno consta só da obediência; e que, ao contrário, o exercício das boas obras que estão fora da lei de Deus equivale a profanação, que não se deve tolerar, da divina e verdadeira justiça." (2.8.5, p.133)

Deus não se agrada daqueles que tentam comprar seu favor ou daqueles que tentam "ensinar" ao Criador novas obras de justiça. Sua Lei é perfeita e deve ser preservada como ele nos deu. Oremos para que nossos corações estejam sempre firmados na Escritura.
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A Lei Moral [ 2.8.1-3 ]

No capítulo 8 do livro 2, Calvino fará a exposição da Lei Moral, como exposta nos Dez Mandamentos. Antes de iniciá-la, porém, ele tem algumas observações a dizer sobre o assunto. Ele volta à questão do conhecimento e nos ensina que na Lei aprendemos mais sobre aqueles dois elementos básicos do que podemos saber: o conhecimento de Deus e de nós mesmos (expostos no primeiro capítulo do primeiro livro).

"Ao expor a síntese desses elementos que se requerem no verdadeiro conhecimento de Deus, ensinamos que, em razão de sua magnitude, não pode ele ser de nós concebido sem que imediatamente nos vemos diante de sua majestade, a qual nos impele à adoração. Na parte referente ao conhecimento de nós mesmos, estabelecemos este ponto capital: que, vazios da presunção de virtude própria e despidos da confiança de justiça pessoal, pelo contrário quebrantados e esmagados pela consciência de nossa indigência, aprendamos a genuína humildade e reconhecimento de nossa insuficiência."(2.8.1, p.129)

Adoração e humildade - isto a Lei traz àquele que medita nela dia e noite. Este conhecimento não nos é estranho por natureza. Calvino afirma que em nosso interior já temos gravado o que se deve aprender da Lei. Entretanto, devido a pecado não é mais algo confiável, o que pede uma lei escrita.

"Por isso, porquanto era necessário, tanto a nosso embotamento quanto a nossa contumácia, proveu-nos o Senhor a lei escrita para que não só atestasse com certeza maior o que era demasiadamente obscuro na lei natural, mas também, sacudido o torpor, a mente e a memória nos ferissem com mais intensa vividez." (2.8.1, p.130)

A Lei, como já dissemos, é a pura expressão da vontade do Criador. Não devemos menosprezá-la e considerar seus mandamentos em baixa conta. Negá-los seria negar o próprio Deus. Aqueles que pensam adorar ao Senhor, mas ignoram seus mandamentos demonstram apenas hipocrisia e palavras vazias.

"Deus, uma vez que é nosso Criador, tem portanto por direito, em relação a nós como Pai e Senhor, e por esta razão de nós se lhe devem glória, reverência, amor, temor... Pendentes de seu arbítrio, devemos firmarnos somente naquilo que lhe seja do agrado... Ora, se então, afinal, lhe exibirmos a reverência que de nós se demanda, quando preferirmos sua vontade à nossa, segue-se que outro não lhe é o culto genuíno, senão a observância da justiça, da santidade, da pureza." (2.8.2, p.130)

Embora a Lei se mostre superior à nossa capacidade de cumpri-la, não podemos reclamar inocência. Para o reformador, dizer que é impossível alcançar os padrões de Deus é condenar-se por dizer que o mal está em nós, e não em Deus. Não podemos diminuir a glória de Deus por causa de nossa fraqueza. Só nos resta pedir por misericórdia, que certamente virá.

"Pois não é defensável que meçamos a glória de Deus pela medida de nossa capacidade, porquanto, seja o que de fato somos, Aquele permanece sempre semelhante a si mesmo, amigo da justiça, imune à iniqüidade. Tudo quanto de nós exija, visto que ele não pode exigir senão o que é reto, a necessidade permanece de obedecermos por obrigação de natureza." (idem)

"Um e outro sentimento geram humildade e depreciação própria, de sorte que, ao fim, acontece que o homem, completamente aterrorizado pelo senso da morte eterna, a qual vê a ameaçá-lo como castigo de sua carência de retidão, se volve exclusivamente à misericórdia de Deus como ao único porto de salvação, e assim, sentindo que não é de sua capacidade saldar o que deve à lei, tomado de desespero em seu íntimo, cobre alento para buscar e esperar socorro de outra parte." (2.8.3, p.131)
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A Lei Cerimonial [ 2.7.16-17 ]

Existe, no entanto, uma porção da Lei que pode se considerar abolida - as cerimônias. Calvino, porém, entende que essas cerimônias não devem ser praticadas, mas que são usadas por nós para ver e entender melhor a glória de Cristo.

"Ora, assim como ao povo antigo teriam as cerimônias oferecido um espetáculo vazio, salvo se nelas fosse revelado o poder da morte e ressurreição de Cristo, assim também, se elas não cessassem, hoje não seria possível discernir a que propósito foram instituídas." (2.7.16, p.126)

"Vemos, pois, que em seu cancelamento refulge melhor a verdade do que se continuassem tipificando a Cristo, embora de longe e como que por trás de um véu, o qual já apareceu concretamente. Por isso também, na morte de Cristo, o véu do templo se rasgou em duas partes [Mt 27.51], porque já era vinda à luz a imagem viva e expressa dos bens celestes, que foi iniciada apenas em delineamentos obscuros, como fala o autor da Epístola aos Hebreus [10.1]." (idem)

Assim, esse aspecto da Lei também nos serve de interesse, porém não deve ser colocado em prática, pois isso seria desprezar o caráter definitivo e universal da revelação em Cristo. O erro de muitas igrejas atuais e seus judaizantes modernos está justamente nessa atitude leviana a respeito dos costumes e propósitos da Lei. Calvino entende que as cerimônias procuravam muito mais a confissão do povo, mas não tinham o poder de expiar o pecado, pois isto só está em Cristo.

"Com justiça, portanto, o Apóstolo chama aos ritos e cerimônias veterotestamentários 'títulos de dívida' contrários aos que os observavam, uma vez que através deles atestavam abertamente sua condenação e impureza. Nem a isto se contrapõe o fato de que eles também fossem participantes conosco da mesma graça. Pois alcançaram isto em Cristo, não nas cerimônias, o que o Apóstolo naquela passagem dele distingue, porquanto, então em vigor, obscureciam sua glória." (2.7.17, p.128)

Assim, a expressão "títulos de dívida" (Cl 2.13,14), para Calvino, representava as confissões de pecado (ou seja, de dívida) que os judeus deveriam fazer nas cerimônias mosaicas. Esses títulos só foram cancelados quando Jesus pagou por eles, demonstrando a ineficácia da Lei Cerimonial para salvar. Infelizmente, muitas igrejas se esquecem disso hoje, e fazem seus seguidores temerem maldições e realizarem celebrações judaicas. Isto é negar o poder da Cruz do Senhor. Que Deus nos guarde desse erro!

"Como quisessem os falsos apóstolos de novo sujeitar-lhes a Igreja Cristã, Paulo, não sem causa, reinvestigando-lhes mais a fundo o significado, advertiu aos colossenses no que recairiam se neste modo se deixassem subjugar-se por elas. Pois, ao mesmo tempo, se privavam do benefício de Cristo, razão por que, consumada uma vez a expiação eterna, Cristo aboliu essas observâncias diárias, as quais, eficazes apenas para atestar os pecados, nada podiam fazer para cancelá-los." (idem)
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A maldição da Lei [ 2.7.14-15 ]

Para alguns, o entendimento de Calvino sobre a Lei é errôneo, pois vemos muitas passagens contrárias à Lei no Novo Testamento. Calvino explica que a maldição da Lei é abolida no caso dos servos de Cristo, mas os ensinos que ela contém ainda nos são úteis. Diferente do que acontece com os incrédulos, ela não é um freio para o coração corrupto, mas torna-se expressão escrita daquilo que já está gravado no coração do fiel. Em Mateus 5.17,18, por exemplo, Jesus nos diz que a Lei não será abolida.

"Confirma ele sobejamente que, por sua vinda, nada seria detraído da observância da lei. E com razão, uma vez que ele veio antes para este fim, a saber, para que lhe remediasse às transgressões. Por parte de Cristo, portanto, permanece inviolável o ensino da lei, a qual, instruindo, exortando, reprovando, corrigindo, nos plasma e prepara para toda obra boa." (2.7.14, p.125)

O mesmo pode ser dito de Paulo, que é tido por muitos como alguém que negou a Lei. Pelo contrário, o apóstolo tratava do mesmo assunto. A respeito das maldições, temos os mandamentos como inoperantes, por Cristo se tornar maldito por nós. No entanto, quanto ao ensino e à justiça, a Lei continua proveitosa.

"Portanto, Paulo ensina que devemos tudo fazer para nos desvencilharmos dos grilhões da lei, se não queremos perecer miseravelmente sob eles. Mas, de que grilhões? Dos grilhões daquela austera e hostil exação que nada redime do supremo direito, nem deixa impune qualquer transgressão... Entretanto, isto permanece sempre incontestável: nada se deve detrair da autoridade da lei, e que ela deve ser sempre tomada por nós com a mesma veneração e obediência." (2.7.15, p.125)

Assim, que os cristãos não dêem ouvidos àqueles pastores que se voltam contra a Lei do Senhor. A nossa regeneração torna os mandamentos agradáveis e nos livra da maldição e do medo. Mas isto não significa que o código de santidade proposto por Deus deva ser rejeitado. Pelo contrário, ele se torna mais belo a cada dia ao verdadeiro cristão.
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Terceira função da Lei [ 2.7.12-13 ]

O terceiro uso da Lei diz respeito aos crentes em Jesus, aqueles regenerados e habitados pelo Espírito Santo. Para nós, as palavras de Moisés têm dois usos principais - a instrução da vontade do Senhor e a exortação para que nos desviemos do erro.

"Pois a lei lhe é o melhor instrumento mediante o qual melhor aprendam cada dia, e com certeza maior, qual é a vontade de Deus, a que aspiram, e se lhe firmem na compreensão... pois que ninguém até agora penetrou tanto a sabedoria que não possa da instrução diária da lei fazer novos progressos no conhecimento mais puro da vontade divina." (2.7.12, p.122s)

"Visto que necessitamos não só de ensinamento, mas ainda de exortação, o servo de Deus tirará ainda esta utilidade da lei para que, mediante sua freqüente meditação, seja incitado à obediência, nela seja consolidado e seja impedido de transgredir neste caminho escorregadio." (2.7.12, p.123)

Para nós que estamos em Cristo, os mandamentos devem ser doces, não amargos. Portanto, é um erro pensarmos que a Lei foi abandonada com a Nova Aliança. Ela ainda demonstra aquilo que Deus espera de nós. O padrão de Deus para seu povo foi revelado ali, e os cristãos não podem desprezar esse ensino. Aqueles que negam qualquer valor para os mandamentos de Moisés caem em grande erro.

"Ora, se não se pode negar que nela sobressai um modelo absoluto de justiça, então, a menos que não devamos ter qualquer regra de viver bem e retamente, será ímpio dela afastar-nos. Na verdade, porém, a perpétua e influxível regra de viver não são muitas, mas uma única. Pelo que, o que diz Davi, que o homem justo medita dia e noite na lei do Senhor [Sl 1.2], não se deve entender como a referência a uma só era, pois que é muitíssimo aplicável a todas as épocas, uma a uma, até o fim do mundo." (2.7.13, p.124)

Ainda que a santidade perfeita não seja alcançada aqui, devemos lutar e correr em direção a ela. Calvino usa a comparação bíblica com a corrida, na qual o grande alvo é a glória eterna, já ganha pelos méritos do Senhor Jesus.

"Nessa porfia, se não falharmos, tudo bem. Com efeito, toda esta vida é um estádio, do qual, corrido o percurso, o Senhor nos concederá que alcancemos aquela meta a que agora nossos esforços se empenham à distância." (idem)
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