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Acesse pelo endereço joaocalvino.net

Comemorando os 500 anos de João Calvino, o teólogo da Reforma, este é um blog dedicado a resumir e comentar as Instituras da Religião Cristã, obra máxima do reformador de Genebra. Que ele seja útil à comunidade, seguindo a mesma intenção de Calvino ao escrever seus livros.

"Este tem sido meu propósito: preparar e instruir de tal modo os candidatos à sagrada teologia, para a leitura da divina Palavra, que não só lhe tenham fácil acesso, mas ainda possam nesta escalada avançar sem tropeços."

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Mostrando postagens com marcador pecado. Mostrar todas as postagens
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Pecados veniais e mortais [ 2.8.58-59 ]

Novamente, o mestre francês mira nas idéias inovadoras dos escolásticos. Dessa vez, Calvino critica a noção errônea entre pecados mortais e veniais. Entenda-se pecado venial como "um desejo pecaminoso sem assentimento deliberado, que viceja no coração não por tempo demorado" (Tomás de Aquino, citado em 2.8.58, p.159). Isto é, teríamos um tipo de mal que não seria tão grave ofensa contra Deus quantos os pecados "comuns". No entanto, o reformador explica que tanto esse desejo quanto a ação vêm do mesmo lugar.

"Eu, porém, digo que certamente não se pode suscitar tal desejo, a não ser em virtude da falta dessas coisas que se requerem na lei... Donde provêm esses impulsos, ainda que lânguidos, senão porque há algo vazio na alma para dar acolhida a tentações desta natureza?" (idem)

Quando Deus nos ordena que amemos com todo nosso ser, está claro que toda a alma deve estar voltada a ele, sem exceção para desejos malignos rápidos. Além disso, o décimo mandamento justamente nos proibe de ter pensamentos maus, significando que isto é algo tão pecaminoso quanto a própria ação consumada.

"O preceito é sobre amar a Deus de todo o coração, de toda a mente, de toda a alma. Portanto, a não ser que para o amor de Deus se voltem todos os poderes da alma, já é alienamento da obediência da lei, porquanto os inimigos que aí se insurgem contra seu reino, e lhe obstam os decretos, provam não estar bem firmado em nossa consciência o trono a Deus... Sobre a transgressão da lei sempre se descarrega a maldição de Deus. Portanto, não há por que eximamos da sentença de morte a qualquer cobiça, ainda as mais leves." (idem)

A idéia de pecados menos terríveis parece mais agradável por nos deixar a consciência mais tranquila. No entanto, não é isto que ensina a Palavra. Se Deus é aquele que ordena, como poderia um desacato a sua autoridade ser menos que mortal?

"Com efeito, deveriam considerar não só o que se ordena, mas também quem é que o ordena, visto que nela a mínima transgressão da lei que ele estabeleceu é ferida sua autoridade. Porventura lhes é de pouca importância que a majestade de Deus seja violada em qualquer coisa? Ademais, se na lei expôs Deus sua vontade, desagrada-lhe tudo quanto é contrário à lei." (2.8.59, p.180)

Por outro lado, felizmente, em relação aos que estão debaixo da graça de Cristo nenhum pecado mais é mortal. Fomos cobertos pelo sangue de Cristo, ele levou sobre si a morte que seria nossa. Que louvemos ao Senhor por tanto amor.

"Quanto aos pecados que os santos e os fiéis cometem, saibam que são veniais, não por sua natureza, mas porque pela misericórdia de Deus são perdoados." (idem)
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Maldição hereditária? [ 2.8.19-20 ]

"Porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos." (Êxodo 20.5,6)

Como foi dito, Calvino agora trata da questão do castigo sobre as gerações no segundo mandamento. Para o reformador, a promessa de castigar filhos pelos pecados dos pais não combina com a justiça divina, como nos ensina Ezequiel 18.20, por exemplo. No entanto, o mandamento faz essa afirmação estranha e devemos tratar dela.

"A justa maldição do Senhor pesa não apenas sobre a cabeça do ímpio, mas também sobre toda sua família. Onde esta maldição pesou, que se pode esperar, senão que o pai, destituído do Espírito de Deus, vive mui abominavelmente, e o filho, semelhantemente abandonado pelo Senhor por causa da iniqüidade do pai, segue o mesmo caminho de perdição? Finalmente, o neto e o bisneto, execrável semente de homens abomináveis, após eles se lancem em precipícios?" (2.8.19, p.146)

No entanto, o reformador entende que, mesmo nessa situação, Deus sobressai-se como justo. Se os filhos caem nos mesmos pecados dos pais, é porque eles também se desviaram do Senhor. Deus, de forma justa, retirou sua mão graciosa de suas vidas, mantendo-se santo, a despeito dessa punição. De qualquer maneira, o Senhor não tem obrigação de salvar qualquer homem.

"Perecem por sua própria iniqüidade, não por ódio iníquo de Deus. Nem lhes é deixada qualquer desculpa por que à salvação não são ajudados pela graça de Deus a exemplo de outros. Portanto, uma vez que esta punição é aplicada aos ímpios e depravados em vista de suas abominações, assim que suas casas sejam privadas da graça de Deus por muitas gerações, quem haja de intentar incriminação a Deus por causa desta justíssima represália?" (2.8.20, p.146)

Ainda assim, Calvino entende que é possível, em certo sentido, que a descendência leve a culpa do pai. Porém, isso acontece somente quando, em sua impenitência, os filhos insistem em seguir o caminho de seus precursores, mantendo sobre si o quer seriam "maldições" da família, embora eles mesmos também as mereçam.

"Se a visitação da qual agora se fala é aplicada quando o Senhor retira da família dos ímpios a graça, luz de sua verdade e os auxílios restantes para salvação, é porque, cegados e afastados d'Ele, os filhos insistem em seguir as pegadas dos pais, sustentando as maldições dos crimes paternos. Sendo prontamente subjugados, por um justo juízo de Deus, tanto às misérias temporais quanto à ruína eterna, não são punidos pelos pecados alheios, mas pela própria iniquidade." (2.8.20, p.366s, edição da UNESP)

Vemos, portanto, que o ensino de Calvino sobre esta cláusula do segundo mandamento é muito mais satisfatório que as idéias propostas principalmente por líderes neopentecostais. Deus não é injusto e fará sofrer alguém alcançado pela sua graça. Somente famílias que perpetuam a impiedade receberão continuamente a punição divina.
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O segundo mandamento [ 2.8.17-18 ]

"Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto." (Êxodo 20.4,5)

Se o primeiro mandamento tratava sobre a natureza única de Deus, o segundo fala em especial sobre que culto deveria ser dedicado a ele. Calvino entende o mandamento como uma declaração de que toda forma material acaba diminuindo a glória de Deus. Deus é espírito e não tem uma imagem que algum humano possa conceber.

"Neste mandamento declara ainda mais explicitamente agora de que natureza é, e com que modalidade de culto deve ser ele honrado, para que não ousemos atribuir-lhe algo sensório... ele nos dissuade e afasta totalmente das observâncias materiais insignificantes que nossa mente bronca, em razão de sua ignorância, costuma inventar quando concebe a Deus. E daí nos instrui em relação a seu legítimo culto, isto é, ao culto espiritual e estabelecido por ele mesmo. Assinala, ademais, o que é o mais grosseiro defeito nesta transgressão: a idolatria exterior." (2.8.17, p.144)

Novamente o reformador usa a imagem de um casamento para ilustrar a quebra de um mandamento. Falando sobre o divino castigo àqueles que fabricam imagens, ele entende que a ira de Deus assemelha-se à de um marido que descobre a traição de sua esposa. Por isso existe ameaça de grave julgamento sobre a família que se envolver nesse tipo de culto.

"Portanto, como um marido, quanto mais santo é e casto, tanto mais gravemente se ofende ao ver o coração da esposa a inclinar-se para com um rival, assim o Senhor, que verdadeiramente nos desposou para si, evidencia ser muito ardente sua inconformidade, sempre que, desdenhada a pureza de seu santo matrimônio, somos manchados de apetites impuros." (2.8.18, p.145)

O tema da ira divina será tratado especialmente nas próximas seções. É importante destacar o entendimento de Calvino sobre essa mandamento, em relação ao primeiro. Para o reformador, mais grave que a idolatria, é manchar o culto a Deus com imagens deste pecado.

"Mas, então isto sente especialmente o Senhor, quando oferecemos a outro o culto de sua divina majestade, que conviera ser absolutamente ilibado, ou o corrompemos com alguma superstição, uma vez que, deste modo, não só violamos o compromisso feito no casamento, mas ainda, acenando aos amantes, maculamos o próprio leito conjugal." (idem)

Esse mandamento é um apelo para que tenhamos cuidado com o tipo de culto que dedicamos ao Senhor. Mesmo hoje os protestantes e evangélicos não estão isentos de cair nesse erro. Precisamos questionar todo tipo de prática que dá mais ênfase ao que é ilustrado por homens que àquilo que é descrito na Palavra. Peçamos que o Espírito Santo nos ilumine em nossas falhas.
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Primeira função da Lei [ 2.7.6-7 ]

Para Calvino, a Lei Moral tem três funções principais. A primeira delas já começamos a tratar brevemente - a lei serve para demonstrar a condição pecaminosa do homem. "Não há um justo sequer", dizem Davi e Paulo (Sl 14.1-3; Rm 3.10), e os mandamentos do Senhor evidenciam nossa injustiça, nos desprovindo de qualquer tentativa de engrandecer-se. Sobre o homem não-regenerado, que se considera santo, Calvino nos diz:

"Por quanto tempo se lhe permite firmar em seu próprio julgamento, fomenta a hipocrisia em lugar da justiça, contente com a qual se levanta contra a graça de Deus, não sei com que engendradas justiças. Entretanto, depois que é obrigado a pesar sua vida na balança da lei, posta de parte a presunção dessa justiça imaginária, percebe estar distanciado da santidade por imenso espaço; pelo contrário, que superabunda de infinitos vícios dos quais até aqui parecia livre." (2.7.6, p.118)

Como se nossa condição não fosse já lamentável, a Lei também lembra que existe uma série de maldições sobre aqueles que vivem em pecado. Ela não apenas nos declara a condição do incrédulo, mas as consequências de seus atos.

"Pois aquele a quem falta a capacidade para seguir a justiça, este está de modo absoluto atolado em um lamaçal de pecados. Ao pecado se segue imediatamente a maldição. Portanto, quanto mais a lei nos convence de que somos homens que têm cometido transgressão, tanto mais nos mostra que somos dignos de pena e castigo." (2.7.7, p.118)

O reformador esclarece que em nenhum momento procura diminuir a Lei do Senhor. Pelo contrário, visto ser ela expressão da justiça e santidade divina, seria útil para a salvação do homem, se a humanidade não buscasse apenas a própria glória. No entanto, ainda assim podemos desfrutar desta primeira função, uma vez que, diante de nosso pecado a graça do Senhor a cada dia se mostra mais grandiosa. Que nossos corações estejam gratos, como aquele a quem muito foi perdoado (Lc 7.36-47).

"Ora, daí se evidencia cabalmente que por nossa corrupção e perversidade somos impedidos de fruir da bem-aventurança de vida revelada mediante a lei. Donde se torna mais dulçorosa a graça de Deus que nos socorre sem o subsídio da lei e mais aprazível sua misericórdia que no-la confere, mediante a qual aprendemos que ele jamais se cansa de continuamente conceder-nos benefícios e cumular-nos de novas dádivas." (2.7.7, p.119)
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As promessas da Lei [ 2.7.3-5 ]

Sendo a expressão da vontade de Deus, a Lei nos mostra altíssimos padrões de justiça, algo que o homem pecador não pode alcançar. Assim, para Calvino, um dos propósitos da Lei é levar o homem a perceber a inutilidade de seus esforços e ansiar pelas promessas daqueles que cumprem os mandamentos.

"Portanto, resta isto somente: que da excelência destas promessas melhor estime o homem sua própria miséria, enquanto, cortada a esperança da salvação, reconhece ameaçá-lo, inexoravelmente, a morte." (2.7.3, p.115)

Então essas promessas da Lei não passam de mera zombaria? Se não podemos alcançá-las, para que prometê-las? Calvino explica:

"Se bem que, até onde são condicionais, as promessas da lei dependem da perfeita obediência da lei, obediência que em parte alguma se achará, contudo não foram dadas em vão. Pois, quando tivermos aprendido que elas nos haverão de ser fúteis e ineficazes, salvo se, de sua graciosa bondade, sem levar em consideração as obras, Deus nos abrace e, de igual modo, pela fé sejamos abraçado por essa bondade a nós exibida pelo evangelho, por certo que as promessas não carecem de sua eficácia, mesmo com a condição anexa." (2.7.4, p.115s)

Caso alguém tenha dúvidas sobre a incapacidade humana, Calvino deixa claro que a Escritura sempre afirma que é impossível ao homem pecador cumprir toda Lei. Para o reformador, trata-se de um sofisma afirmar algo que a Escritura e superstição crer que algum santo do passado não cometeu pecados.

"Se retornarmos ao mais remoto período, afirmo que nenhum dos santos jamais existiu que, revestido do corpo de morte [Rm 7.24], a este grau de amor haja atingido, que amasse a Deus de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a alma, de toda a força; por outro lado, ninguém que não tenha sentido o poder da concupiscência. Quem o contradiz? Vejo, com efeito, que sorte de santos nos imagine a estulta superstição, isto é, santos a cuja pureza mal correspondem os anjos dos céus, mas o repelem tanto a Escritura quanto o ditame da experiência." (2.7.5, p.116)

Assim, que sejamos gratos ao Senhor, por nos presentear com bênçãos que não conquistamos, mas que ele conquistou para nós. Que nos lembremos sempre das palavras do reformador sobre o assunto.

"De tal forma tudo nos confere graciosamente o Senhor que também isto acrescente ao vasto acervo de sua benevolência: que, não rejeitando nossa imperfeita obediência, e suprindo o que lhe falta em completamento, nos faz perceber o fruto das promessas da lei, exatamente como se por nós fosse cumprida a condição." (2.7.4, p.116)
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A Lei e a Graça [ 2.5.6-8 ]

Ainda falando sobre a questão das exortações bíblicas, Calvino nos diz que as ordens que nos são dadas pela Lei não são a medida de nosso livre-arbítrio. Para o reformador, essa idéia é falsa. Pois muitas vezes a Bíblia nos lembra que devemos pedir a Deus o poder para cumprir sua Lei. Ela deixa claro o pecado e a nossa incapacidade.

"Pergunto, pois, que lhes significam estas passagens: 'A lei foi outorgada por causa das transgressões' [Gl 3.19]; 'O conhecimento do pecado é mediante a lei' [Rm 3.20]; 'A lei engendra o pecado' [Rm 7.7, 8]; 'Sobreveio a lei para que abundasse a ofensa' [Rm 5.20]? A lei deveria limitar-se às nossas forças, para que não fosse dada em vão? Pelo contrário, antes a lei foi posta muito acima de nós, para que nos convencesse de nossa incapacidade." (2.5.6, p.88)

O reformador entende que existem três categorias básicas da Lei, cada qual com seu propósito. E em nenhuma delas devemos entender que isso implica na capacidade do homem para obedecer. O primeiro tipo nos ordena a conversão a Deus, o segundo que cumpramos os mandamentos do Senhor, e o terceiro que permaneçamos na graça de Deus. Calvino desenvolverá melhor esse tema depois, então é importante sabermos apenas que dependemos da graça para realizar o que é esperado de nós.

"Ela ensina que o poder de obedecer procede da bondade de Deus, e por isso nos convida às preces, mediante as quais imploremos que nos seja dado esse poder... Quando porém, ao mesmo tempo, se lhes associam promessas, as quais proclamam que não só necessitamos do auxílio da graça divina, mas ainda de todo poder, as mesmas comprovam mais que suficientemente que somos de todo inaptos, para não dizer incapazes, para observar a lei." (2.5.7, p.89s)

Assim, a Lei não é aquela que nos diz o que podemos fazer, mas aquela que nos mostra o que deveríamos fazer, mas não conseguimos. Ela aponta para a justiça, mas realça nosso pecado. A nossa única salvação é clamar pelo socorro de Deus, pedir pela ação da graça divina e batalhar por nossa vida. Somente nos reconhecendo incapazes, começaremos a ser capacitados a cumprir toda a justiça. As palavras de Agostinho expressam isso muito bem:

"Deus ordena o que não podemos, para que saibamos o que devamos dele suplicar."

"Deus dá o que ordena e então ordena o que quer." (2.5.7, p.90)
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Primeira objeção pelagiana [ 2.5.1 ]

As próximas seções Calvino dedicará a possíveis objeções levantadas à sua doutrina da vontade humana. Em sua opinião, tratam se pessoas que carregam "um falso conceito de liberdade" (2.5.1, p.83). Para facilitar o estudo, farei um post para cada uma delas. A primeira delas, pode ser resumida na seguinte frase: "Se o pecado, dizem eles, é por necessidade, então deixa de ser pecado; se é voluntário, então pode ser evitado". (idem)

Esse argumento, que remonta a Pelágio (séc.V), pode ser resumido da seguinte forma: o pecado deve ser voluntário, pois somente assim o pecador será culpado. O reformador argumenta que o ser humano é pecador por corrupção em sua natureza, não por uma criação falha de Deus. Além disso, Calvino nos lembra que a culpa do homem não se baseia apenas em suas ações, mas também na condenação que Adão trouxe a seus filhos.

"Donde, pois, essa incapacidade que os ímpios de bom grado invocariam como pretexto, senão que, por sua livre vontade, Adão se entregou à tirania do Diabo? Daqui, pois, a corrupção de cujos laços somos mantidos atados, ou, seja, que o primeiro homem desertou de seu Criador." (idem)

Novamente o exemplo do Diabo e dos anjos é usado aqui. Enquanto o inimigo peca tanto por necessidade quanto por vontade, e é culpado disso, os anjos desejam o bem, ainda que lhes seja necessário por sua natureza. Uma citação adaptada de Bernardo aqui é útil.

"Mais miseráveis somos nós por isto: que a necessidade é voluntária, necessidade que, todavia, a tal ponto nos mantém sujeitos a si, que nos tornamos escravos do pecado, como já referimos." (idem)

O que existe, Calvino conclui, é uma confusão entre vontade e liberdade. Um ato pode ser praticado voluntariamente, mas ainda assim não ser um ato livre. É importante guardarmos isso, para não cairmos em erro e sabermos responder as dúvidas sobre a sã doutrina.
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Ação divina sobre Satanás [ 2.4.5 ]

Em uma seção curta, Calvino fala sobre a soberania de Deus sobre o diabo. O próprio inimigo de Deus também é instrumento da vontade divina, cumprindo decretos, maldições e juízos sobre os homens. Um exemplo bíblico encontra-se em 1Samuel, quando um espírito maligno foi convocado para atormentar Saul.

"Saul ou foi 'arrebatado', ou foi 'entregue' a 'um mau espírito do Senhor' e a 'um mau espírito da parte do Senhor' [1Sm 16.14; 18.10; 19.9]. Atribuir isto ao Espírito Santo é uma impiedade. Logo, chama-se 'espírito de Deus' a um espírito impuro, porque este lhe atende ao mando e poder, mais um instrumento seu em ação do que um agente de si próprio." (2.4.5, p.79s)

Essa doutrina nos deve trazer paz, e não confusão. Não se tratam de atos maus da parte de Deus, mas de seus decretos, que nos dão a certeza de que não estaremos jamais indefesos. Hoje muitos evangélicos vivem temendo o inimigo, pois não reconhecem esse ensinamento bíblico. Que tenhamos a mesma convicção de Calvino ao tratar desse tema.

"Entretanto, com grande diferença, sempre se distingue em um mesmo ato aquilo que o Senhor faz daquilo que Satanás e os ímpios porfiam por fazer. Aquele faz com que sirvam à sua justiça estes instrumentos maus que tem sob a mão e pode volver para onde quer. Estes, na medida em que são maus, em seu agir dão à luz a iniqüidade concebida pela depravação da mente." (2.4.5, p.80)
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Ação divina sobre os ímpios [ 2.4.3-4 ]

Falando sobre a dificuldade que os teólogos têm a respeito da soberania de Deus mesmo nos corações pecaminosos, Calvino lamenta que o próprio Agostinho tenha às vezes vacilado nesse assunto (embora os editores, tanto da Cultura Cristã, quanto da UNESP, entendam ser uma citação do Pseudo-Agostinho). Para o reformador, precisamos ser honestos com as palavras da Bíblia em entender que Deus move o coração do réprobo de duas formas, a saber:

"Primeira como se, com efeito, removida sua luz, nada resta senão trevas e cegueira; ou, retirado seu Espírito, em pedra se torna nosso coração; ou, cessando-lhe a direção, à tortuosidade se transvia, com razão se diz que ele cega, endurece, inclina àqueles a quem priva da capacidade de ver, de obedecer, de seguir retamente.

A segunda maneira, a qual se aproxima muito mais à propriedade dos termos, é que, para executar seus juízos, mediante o ministro de sua ira, Satanás não só lhes determina os desígnios, como lhe apraz, mas ainda lhes desperta a vontade e firma os esforços."
(2.4.3, p.78)

Alguns versos que confirmam o primeiro tipo de juízo divino se encontram em Jó 12.20,24 e Isaías 63.17. Enquanto da segunda maneira temos o caso de Faraó (Êx 4.21), além de passagens como Deuteronômio 2.30 e Salmo 105.25. A Bíblia claramente ensina que Deus está por trás desses atos, ainda que esses homens permaneçam culpados por sua maldade. Um exemplo comum é quando o Senhor levanta uma nação pagã contra Israel.

"Além disso, sempre que lhe aprouve punir a transgressão do povo, como levou a bom termo sua obra mediante os réprobos? De tal modo que vejas que a eficiência do agir esteve nele e que eles simplesmente contribuíram com o desempenho. Pelo que, ora ameaçava convocá-los com seu assobio [Is 5.26; 7.18], ora usava os ímpios como uma rede para emaranhá-los [Ez 12.13; 17.20]; ora como um malho para ferir aos israelitas [Jr 50.23]." (2.4.4, p.79)

Para concluir, o reformador nos deixa outra brilhante reflexão de Agostinho (agora o verdadeiro!). Que meditemos sobre ela e nos maravilhemos com nosso Deus.

"Que os maus pequem, isso eles fazem por natureza; porém que ao pecarem, ou façam isto ou aquilo, isso provém do poder de Deus, que divide as trevas conforme lhe apraz." (idem)
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Tríplice operação [ 2.4.1-2 ]

Como a vontade humana é guiada para o bem ou para o mal? Este é o assunto tratado por Calvino nas próximas seções. Para isso, o reformador usa primeiro a comparação oferecida por Agostinho, de que o homem, semelhante a um cavalo, é levado por Deus pelo reto caminho, ou montado por Satanás corre por despenhadeiros íngremes.

"Portanto, que se diz estar a vontade do homem natural sujeita ao jugo do Diabo, tanto que daí é acionada, não significa que ela seja constrangida à obediência, relutante e renitente, como, por direito de senhorio, obrigamos a escravos indispostos a obedecerem a nossas ordens; pelo contrário, fascinada pelas artimanhas de Satanás, mostra-se-lhe necessariamente obediente a todo ditame." (2.4.1, p.76)

O reformador entende que, embora chamemos certos males como obras do diabo, vários deles têm como raiz a própria vontade humana, cuja malícia fundamenta o reino do inimigo. Mas a questao que se levanta com isso é: como conciliar a decisão humana, com a manipulação diabólica e, para piorar, a soberania divina. Vemos Jó, por exemplo, associar as ações malignas dos caldeus a Deus, enquanto o narrador já havia citado a ação do diabo no caso. Calvino entende que há diferença por conta de dois fatores - o fim e o modo.

"O desígnio do Senhor é exercitar pela calamidade a paciência de seu servo; Satanás está empenhado em levá-lo ao desespero; os caldeus buscam, fora do direito e da ética, auferir ganho da coisa alheia. Tão grande diversidade nos intentos já distingue sobejamente a operação de cada um."(2.4.2, p.77)

"Não menos de diferença há no modo do agir. O Senhor permite a Satanás que seu servo seja afligido; concede e entrega, para que os caldeus sejam impelidos por ele, a quem escolheu por ministros para que executem isto. Satanás, por outro lado, com seus aguilhões envenenados, espicaça o espírito depravado dos caldeus para que perpetrem esta abominação; estes se arrojam furiosamente à injustiça e atrelam e contaminam nessa perversidade a todos os seus membros." (idem)

Calvino adverte que ele está tratando do caso específico da história de Jó. Mas mesmo assim, podemos identificar esse princípio universal quando pensarmos no governo do Senhor sobre o mundo. Teremos nossos corações tranquilizados e seremos cuidadosos em nossas decisões, a fim de sermos vasos de honra.

"Logo, vemos que não é absurdo atribuir o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem; ao contrário, a diversidade no propósito e na maneira faz com que reluza aqui, sem culpa, a justiça de Deus; com seu opróbrio se manifeste a impiedade de Satanás e do homem." (idem)
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Vontade e Necessidade [ 2.3.5 ]

Novamente Calvino trata da questão da liberdade humana, agora centrando-se no aspecto da nessecidade de pecar. Como já foi dito, o homem, embora escravo do pecado, em nenhum momento tem sua vontade violentada. O teólogo de Genebra crê que o que existe aí é uma confusão entre compulsão e necessidade. Ele cita um antigo mestre para ajudar em sua explicação.

"O homem, ao sujeitar-se a esta necessidade, não é privado da vontade, mas da sanidade da vontade... Com efeito, nem se pronunciou inadequadamente Bernardo, que ensina subsistir em todos nós o querer – porém, querer o bem ser proveito; querer o mau, defeito. Isto é, simplesmente querer provém do homem: querer mal, da natureza corrompida; querer bem, da graça." (2.3.5, p.62)

Calvino mostra que tanto Deus quanto o diabo têm necessidades voltadas para certo valor, e nem por isso podemos considerá-los como marioenetes ou robôs. Não se trata de uma compulsão, mas de uma orientação. Tratam-se de trechos bastante elucidativos:

"Ora, a bondade de Deus é a tal ponto entrelaçada com sua divindade, que não lhe é mais necessário ser Deus do que ser bom. O Diabo, porém, em decorrência de sua queda, a tal ponto se alienou da comunhão do bem, que nada pode fazer senão o mal... Portanto, não se impede que a vontade de Deus seja livre em fazer o bem, só porque ele por necessidade opera o bem; se o Diabo, que outra coisa não pode fazer senão o mal, entretanto peca por vontade, quem por isso dirá que o homem peca menos voluntariamente, uma vez que está sujeito à necessidade de pecar?" (2.3.5, p.62s)

O que existe no caso do homem, para Calvino, é uma relação quase simbiótica entre vontade e necessidade. Ao mesmo tempo em que o homem é livre enquanto peca, ele tem a necessidade de pecar. A vontade do homem produz a necessidade, e a necessidade produz a vontade. Novamente trazendo Bernardo como guia, o reformador nos deixa uma desafiadora citação dele:

"Desse modo, não sei por que modo depravado e estranho, mudada pelo pecado, em verdade para pior, a própria vontade para si engendra a necessidade, de modo que nem a necessidade, uma vez que provenha da vontade, pode escusar a vontade, nem a vontade, uma vez que tenha sido seduzida, pode excluir a necessidade... E assim a alma, de certa maneira estranha e deplorável, sob esta necessidade, há um tempo, decorrente da vontade e perniciosamente livre, afirma ser não só escrava, mas também livre: escrava, em função da necessidade; livre, em função da vontade; e, o que é mais estranho e mais deplorável: é culposa, por ser livre; e é escrava, por ser culposa; e, em decorrência disso, é escrava, quando é livre." (2.3.5, p.63)
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A Graça Comum [ 2.3.3-4 ]

A última seção terminou com Calvino nos explicando que nem todas as pessoas efetivam toda a corrupção que existe em seus corações. Nem todos se parecem com o retrato da humanidade que Paulo apresenta em Romanos 3. O reformador passa a explicar isso, uma doutrina que mais tarde ficaria conhecida como graça comum.

"Em seus eleitos, o Senhor cura estes achaques na maneira que logo exporemos; nos outros, aplicado um freio, apenas os coíbe, só para que não se arrojem a extremos, até onde antevê ser conveniente para a preservação da totalidade das coisas." (2.3.3, p.60)

As maneiras que Deus utiliza para deter o pecado nos seres humanos não-regenerados são das mais variadas. O importante é notarmos que tudo está debaixo da providência de Deus, que sabiamente governa a humanidade.

"Daqui, uns são contidos pelo senso de vergonha, outros, pelo temor das leis, para que não se lancem a muitas espécies de torpezas, se bem que, em larga medida, não dissimulam sua impureza; outros, porque julguem ser de vantagem uma forma honesta de viver, a ela, de certa maneira, aspiram; outros se alteiam acima da condição vulgar para que, mercê de sua própria importância, contenham os demais na linha da deferência apropriada." (idem)

O reformador também nos lembra que muitos homens carregam algumas virtudes, mas que elas são sempre dons com que Deus presenteia alguns ímpios, sem que haja algum tipo de transformação interior nessas pessoas. Por sua providência o Senhor capacita as pessoas conforme sua vontade e propósito.

"Por cuja razão, em linguagem comum, não nos arreceamos de dizer ser este bem-nascido, ser aquele de natureza depravada. Entretanto, nem deixamos de incluir a um e ao outro sob a condição universal de depravação humana, mas apontamos que, por graça especial, o Senhor tem conferido a um, da qual não dignou prover ao outro." (2.3.4, p.61)

No entanto, por maior que seja a aparência de justiça em um ímpio, há um teste final que ele não pode superar - sua motivação. Deus distribui seus dons a essas pessoas e muitas possuem elevado padrão de conduta. No entanto, nenhum ímpio glorificará conscientemente a Deus com seus atos. Por mais virtuoso que seja o incrédulo, ele é incapaz de fazer o que faz para a glória de Deus e isso o torna pecador, mesmo em sua justiça.

"Onde nenhum empenho há de promover a glória de Deus, empenho de que são desprovidos todos os que Deus não regenerou por seu Espírito, está ausente a parte principal da retitude." (2.3.4, p.61s)

Não devemos pensar que os homens não são todos corruptos porque um ou outro se elevam acima dos pecadores. Precisamos ter em mente que somente aqueles que buscam a glória de Deus realmente entenderam o que é a perfeita justiça.
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Corrupto por completo [ 2.3.1-2 ]

Uma confusão comum entre os leitores da Bíblia é a associação muito restrita do termo carne à porção sensória do ser humano. Calvino inicia o terceiro capítulo do livro 2 corrigindo este mal entendido. Não foi apenas o corpo humano afetado pela queda, como creem alguns, mas o homem por completo. Tudo aquilo que temos naturalmente está corrompido.

"Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação." (2.3.1, p.57)

A Bíblia é clara em afirmar que a parte imaterial do homem é fonte de pecado. Não derivamos nosso pensamento dos platônicos, mas de Deus. Mesmo o coração, considerado por alguns a melhor expressão do que é o ser humano, não escapa desse vírus implacável. "Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9]." (2.3.2, p.58). Para não se delongar muito nesse assunto, Calvino escolhe Romanos 3 como texto-base para demonstrar a nossa depravação. Temos uma citação longa, mas necessária.

"Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos." (2.3.2, p.59)

O reformador nos lembra que essa passagem trata de toda humanidade, e não apenas de alguns. Ele também afirma que, embora nem todos cheguem a cometer tamanhos males, essa semente pecaminosa deixa aberta essa possibilidade no coração de todo ser humano.

"Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um." (idem)
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Livre-arbítrio, um escravo [ 2.2.26-27 ]

A questão da liberdade da vontade humana é considerada um diferencial na teologia de Calvino. Assim, depois de discutir a corrupção da mente, o reformador volta-se para a demonstração de que não temos uma vontade livre. Pelo contrário, por natureza escolhemos aquilo que nos parece o bem, assim como qualquer animal faz. Não há deliberação da mente, mas apenas uma escolha natural.

"Se contemplas o que é este desejo natural do bem no homem, verificarás que ele o tem em comum com os animais... Sem razão, sem reflexão, segue a inclinação da natureza, como um animal. Portanto, se porventura o homem é levado a buscar o bom por injunção da natureza, isto em nada diz respeito à liberdade de arbítrio. Pelo contrário, requer-se isto: que depois de discenir o bom, o escolha e busque o que escolheu." (2.2.26, p.54)

O erro dos arminianos é achar que os calvinistas entendem os homens como robôs. No entanto, os reformados reconhecem que o homem faz aquilo que deseja. O problema não é ele decidir o que fazer, mas o fato dele sempre decidir segundo sua inclinação pecaminosa. Além disso, mesmo o "bem" que o homem escolhe tem como pano de fundo seu desejo por bem-estar, o que certamente não é sinônimo de uma decisão conforme os padrões de Deus.

"Ora, aqui, primeiro, o apetite não só é chamado um movimento próprio da vontade, mas ainda uma inclinação natural, como também, segundo, o bom não provém de virtude ou de justiça, mas de condição, como, por exemplo, quando se trata do bem-estar do homem. Afinal, por mais que o homem deseje seguir o que é bom, contudo não o segue; assim como ninguém há a quem a bem-aventurança eterna não seja agradável, à qual, entretanto, ninguém aspira, senão pelo impulso do Espírito." (2.2.26, p.54)

Assim, Calvino interpreta o polêmico capítulo 7 de Romanos como sendo a representação de um homem regenerado lutando contra seus impulsos, vivendo no conflito carne contra espírito. Somos pessoas presas ao pecado, e mesmo quando pedimos a Deus por libertação, o próprio Deus já está agindo em nós.

"Fora, pois, com tudo aquilo que muitos têm bradado acerca de uma preparação, porque, se às vezes os fiéis rogam por um coração que lhes seja plasmado para a obediência da lei de Deus, como o faz Davi em muitos lugares, entretanto deve-se notar que também este desejo de orar procede de Deus, o que se pode coligir de suas palavras. Pois, ao desejar que em si seja criado um coração limpo [Sl 51.10], por certo que não reivindica para si o início dessa criação." (2.2.27, p.56)

Que a nossa atitude seja semelhanteao que Agostinho nos propõe em mais uma citação que Calvino faz.

"Confessa que todas essas coisas as tens de Deus; tudo quanto tens de bom, dele provém; de ti procede tudo quanto há de mau. Nada é nosso, senão o pecado.” (idem)
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A falha da razão [ 2.2.24-25 ]

A razão, aliada à Lei Natural, é importante para que a humanidade organize-se em sociedade, produza coisas belas e úteis, possua uma certa moralidade e, consequentemente, não se destrua. No entanto, essas habilidades humanas de pouco valem quando o assunto é alcançar a verdadeira justiça. Comparando a mente do homem com a Lei de Deus, Calvino diz:

"E se queremos confrontar nossa razão com a lei de Deus, que é o paradigma da perfeita justiça, descobriremos em quão numerosos pontos aquela é cega! Por certo que longe está ela de alcançar aquelas coisas que são primordiais na primeira tábua do Decálogo, as quais dizem respeito à confiança em Deus, ao louvor da virtude e da justiça que se deve atribuir-lhe, à invocação de seu nome, à verdadeira observância do sábado." (2.2.24, p.51)

O reformador admite que em relação à segunda tábua da Lei (que trata do relacionamento do homem com seu próximo) os homens têm mais sucesso em obedecer às ordem de Deus, por conta da manutenção da ordem social. Porém, ainda assim somos falhos se dependermos apenas dos dons naturais. Seremos facilmente ludibriados por nossa mente enganosa. Por esse motivo Calvino critica os filósofos, por se esquecerem da total corrupção humana e levarem em conta apenas ações maléficas deliberadas e realizadas.

"Ora, enquanto os filósofos caracterizam como vícios às tendências imoderadas da mente, assim o entendem aquelas que se exteriorizam e se manifestam por sinais mais crassos, porém reputam por nada os desejos depravados que afagam a mente de forma cariciosa." (2.2.24, p.52)

"Se deve repudiar a opinião daqueles que ensinam que em todos os pecados permeiam deliberadamente a maldade e perversidade. Pois sempre que experimentamos a saciedade, com toda nossa boa intenção caímos." (2.2.25, p.52)

Assim, a solução para que o homem dirija-se retamente é buscar iluminação do Espírito Santo, a fim de que seja instruído pela Palavra. Como já vimos, o objetivo a lei natural é condenatório, não salvífico, de maneira que ela não tem poder de guiar alguém a Deus. É preciso que homens e mulheres tomem consciência de sua própria incapacidade e busquem, como os santos fizeram, a orientação do Senhor. E por todos os dias de sua vida.

"Davi estava cônscio desse padecimento em relação a si mesmo, quando rogava que lhe fosse concedido entendimento para aprender retamente os preceitos do Senhor [Sl 119.34]. Ora, quem deseja alcançar para si nova compreensão, deixa claro que de modo algum lhe é suficiente à compreensão que possui... Nem ensina a Escritura que são nossas mentes iluminadas em apenas um dia, de sorte que, a partir daí, vejam por si próprias, porquanto o contínuo progresso e crescimento lhes são conferidos." (2.2.25, p.52s)
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Bancarrota espiritual [ 2.2.20-21 ]

Adentramos finalmente em um dos principais pontos da teologia calvinista, e vemos que o reformador dedica realmente um bom tempo ao assunto - a pecaminosidade humana. Evidentemente, Calvino usará diversas passagens da Escritura para demonstrar a total inabilidade humana em relação à piedade. Ele começa com Moisés.

"Diz ele: 'Teus olhos viram aqueles sinais e portentos ingentes, e o Senhor não te deu coração para entender, nem ouvidos para ouvir, nem olhos para ver' [Dt 29.3, 4]. Que mais precisaria dizer, se no que tange à consideração das obras de Deus, nos chamou de broncos?" (2.2.20, p.47)

Em seguida o próprio Cristo deixa patente nossa bancarrota espiritual - termo usado por Lloyd-Jones.

"Cristo, por sua palavra, também confirmou isto claramente, quando dizia que ninguém podia vir a ele, a não ser aquele a quem fosse dado por seu Pai [Jo 6.44]... Portanto, ele não pôde mostrar de forma mais clara qual é nossa capacidade para conhecermos a Deus, do que quando nega que tenhamos olhos para contemplar-lhe a imagem mesmo onde tão claramente ela se exibe." (idem)

Nas palavras de Calvino, é necessário que o Espírito forme ouvidos novos em cada homem, a fim de que eles possam ouvir o Evangelho. Aliás, as figuras usadas pela Bíblia são das mais variadas. Uma das mais comuns é a comparação da regeneração com o fim da cegueira. Isso é explicitado em especial no texto de Efésios que também é exposto pelo reformador.

"Dessa forma, o que aqui detrai aos homens, só a Deus, em oração, atribui em outro lugar: 'O Deus', diz ele, 'e Pai da glória vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação' [Ef 1.17]. Ouves já nessas palavras que toda sabedoria e revelação é dom de Deus. Então, o que diz ele em seguida a isso? 'Iluminados os olhos de vossa mente' [Ef 1.181]. Certamente, se carecem de nova revelação, é que por si mesmos são cegos. Segue-se, então: 'Para que saibais qual seja a esperança de vossa vocação' [Ef 1.18], etc. Logo, confessa que as mentes dos homens não são capazes de tão grande entendimento, ao ponto de conhecerem sua vocação." (2.2.21, p.48)

Essa doutrina, como já dissemos mais de uma vez, não é meramente uma depreciação da humanidade, mas parte do remédio necessário para a salvação do homem. Somente ao nos reconhecermos necessitados de Deus iremos ao seu encalço. Lembremo-nos sempre que Deus favorece o humilde, mas rejeita os orgulhosos.

"Se o que buscamos de Deus, confessamos assim faltar-nos, e ele próprio acusa nossa indigência naquilo que promete, que ninguém vacile em confessar que só será capaz de entender os mistérios de Deus quando tiver sido iluminado por sua graça. Quem mais entendimento se atribui, tanto mais cego e menos reconhece sua cegueira." (2.2.21, p.49)
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A miséria humana [ 2.2.17-19 ]

"Esta é a síntese: pode-se perceber em todo o gênero humano que a razão é própria à nossa natureza, a qual nos distingue dos animais brutos, assim como pela sensibilidade diferem estes das coisas inanimadas... Porque, donde procede que um seja mais eminente que outro, senão para que na natureza comum se sobreleve a graça especial de Deus, a qual, preterindo a muitos, se proclama não estar obrigada a ninguém?" (2.2.17, p.44s)

Assim, temos um resumo do pensamento de Calvino a respeito da mente humana. Ela ainda pode alcançar as alturas, mas somente porque Deus o abençoou. Como ele disse ao iniciar esse tema, a razão ainda pode aprender e produzir conhecimento sobre temas terrenos, mas não sobre temas celestiais. Sobre essa "falha" o reformador falará agora. Trata-se de uma "visão espiritual", que ele entende como formada por três tópicos:

"Conhecer a Deus, conhecer seu paterno favor para conosco, no qual se nos firma a salvação, e conhecer a maneira de plasmar a vida segundo a norma de sua lei. Quer nos primeiros dois desses pontos, quer, porém, especialmente no segundo, aqueles que dentre os homens são os mais talentosos, são mais cegos que as toupeiras." (2.2.18, p.45)

Somos totalmente incapazes de nos aproximarmos da luz de Deus por nós próprios. Por mais que o cérebro do homem possa nos dar produtos impressionantes, ele naturalmente se encontra em trevas e não pode alcançar a verdade espiritual. Isso é o que a Escritura também ensina, como os textos a seguir, citados pelo reformador nos mostram.

"Nesta passagem [João 1.4,5] indica-se certamente que a alma do homem é iluminada pelo fulgor da divina luz de tal sorte que nunca é inteiramente destituída um mínimo sequer de sua tênue chama, ou no mínimo de uma centelha, mas mesmo com essa iluminação não compreende a Deus." (2.2.19, p.46)

"Quando o Espírito chama aos homens trevas, ao mesmo tempo os despoja de toda faculdade de entendimento espiritual. Razão por que os fiéis, que a Cristo abraçam, afirma serem nascidos não de sangue, nem da vontade da carne ou da vontade do homem, mas de Deus [Jo 1.13]. Como se estivesse dizendo que a carne não é capaz de tão sublime sabedoria que possa conceber a Deus e ao que é de Deus, a não ser que seja iluminada pelo Espírito de Deus." (idem)

Essa doutrina deve nos levar à humildade, mas também deve impulsionar o empreendimento missionário. Peçamos a Deus por isso. Que sua igreja reconheça cada dia mais a pobreza em que os homens se encontram, e que essa triste constatação a leve a ser instrumento divino do resgate da humanidade com mais vigor.
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A origem da corrupção [ 2.1.10-11 ]

Finalizando o primeiro capítulo do Livro 2, Calvino gasta mais tempo para deixar claro que o pecado é culpa do homem, e não de Deus. Novamente ele se volta para a questão da impiedade ser um problema de corrupção da natureza humana, não da própria natureza.

"Lembremo-nos de que nossa ruína deve ser imputada à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lancemos a acusação contra o próprio Deus, como sendo o autor dessa natureza." (2.1.10, p.25)

O texto de Gênesis nos diz que o Criador observou suas obras criadas e avaliou positivamente tudo o que foi feito, em especial o homem. De fato precisamos entender isso - o ser humano é bom pois foi criado por Deus e por ter sido avaliado positivamente pelo mesmo. Claro que isso se passa antes da Queda, mas o pecado é obra nossa não de Deus. Nós nos fizemos inimigos do Criador por nossa própria culpa.

"Negamos que essa depravação tenha se originado da própria natureza como tal, para que deixemos claro que ela é antes uma qualidade adventícia que sobreveio ao homem, e não uma propriedade substancial que tenha sido congênita desde o princípio... Como poderia Deus, a quem uma a uma comprazem suas mínimas obras, ser inimigo da mais nobre de todas as criaturas? Deus, porém, é antes inimigo da corrupção de sua obra, e não da própria obra." (2.1.11, p.26)

Esse ensinamento é importante, pois combate a heresia dos maniqueus. Os mestres dessa seita não podiam aceitar que existisse algo de mau em um ser criado por Deu, e por isso tentaram criar sua própria explicação para isso. Surgiu daí a idéia de entidades menores que foram responsáveis pela formação do homem, algo certamente não-bíblico.

"Assim dissipa-se a tola baboseira dos maniqueus que, como no homem imaginassem malignidade intrínseca, ousaram anexar-lhe um outro criador, para que não parecessem atribuir ao Deus justo a causa e o princípio do mal." (idem)

Não precisamos apelar para especulações se queremos explicar a corrupção humana.A Bíblia proveu todas as respostas, de maneira que o crente piedoso poderá obtê-las com estudo e dedicação.
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Depravação total [ 2.1.8-9 ]

Calvino inicia a nova seção definindo o que ele quer dizer por pecado. Mais uma vez, vemos a importância que o reformador dava a não deixar qualquer ensino ambíguo ou exposto a interpretações errôneas. Como é comum em seus escritos, trata-se de uma definição dupla.

"O pecado original representa, portanto, a depravação e corrupção hereditárias de nossa natureza, difundidas por todas as partes da alma, que, em primeiro lugar, nos fazem condenáveis à ira de Deus; em segundo lugar, também produzem em nós aquelas obras que a Escritura chama de 'obras da carne' [Gl 5.19]. E é propriamente isto o que por Paulo, com bastante freqüência, designa apenas de pecado." (2.1.8, p.23)

A doutrina da Depravação Total, conhecida como o primeiro ponto do Calvinismo, é exposta pelo reformador - ainda que ele não use esses termos. Isso demonstra que os teólogos reformados não colocaram palavras na boca de Calvino, mas na verdade resumiram os seus ensinamentos.

"Tudo quanto há no homem, desde o intelecto até a vontade, desde a alma até a carne, foi poluído e saturado por essa concupiscência. Ou, para expressar-se mais sucintamente, o homem todo, de si mesmo, outra coisa não é senão concupiscência." (2.1.8, p.24)

De fato o "total" dessa doutrina não quer dizer que os homens são tão maus quanto podem ser, mas que todas as esferas de seu ser foram infectadas pela impiedade. Mais a frente (2.1.9, p.25), Calvino dirá que não é simplesmente o corpo ou a alma que precisa da graça, mas o homem por completo. Nossa situação é tão desesperadora que mesmo aqueles que parecem mais inocentes estão tomados por esse mal e são, portanto, culpadas.

"E por isso também as próprias crianças, enquanto trazem consigo sua condenação desde o ventre materno, são tidas como culposas não por falta alheia, mas pela falta de si próprias. Ora, embora ainda não tenham trazido à tona os frutos de sua iniqüidade, no entanto têm encerrada dentro de si a semente." (idem)

Para alguns, esse ensinamento é ofensivo e precisa ser evitado. Mas isso é um erro. Essa doutrina aterradora e tão difícil de suportar não deve nos fazer mal, mas nos levar ao reconhecimento da necessidade do poder de Deus em nossas vidas. É somente pela graça que poderemos vencer essa corrupção, e é somente reconhecendo-nos com fracos e sujos que teremos acesso a esta maravilhosa regeneração. Não sejamos arrogantes, mas humildes.
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A natureza corrompida [ 2.1.6-7 ]

A relação entre Adão e sua posterioridade é desenvolvida por Calvino nas próximas seções. Tomando os temas que o apóstolo Paulo desenvolve em sua carta aos Romanos, o reformador explica a depravação humana com a dicotomia Adão/Cristo. Se a justiça de Cristo não nos vem por imitação, segue que o pecado de Adão também não caiu sobre nós dessa forma.

"Porque, se está fora de controvérsia que, mediante comunicação, a justiça de Cristo é nossa, e desta a decorrer a vida, segue-se, ao mesmo tempo, que em Adão foram ambas assim perdidas, como em Cristo ambas são recuperadas... E por isso, entre estes dois [Cristo e Adão], a relação é esta: que este, a nós envolvendo em sua ruína, consigo nos perdeu; Aquele, por sua graça, nos restituiu à salvação." (2.1.6, p.21)

No entanto, é necessário nos lembrarmos que não é o homem algo ruim em si mesmo. Por ser criado por Deus, o ser humano é uma criatura boa. Porém, o pecado o torna corruptível, e desgradável ao Criador. Calvino novamente nos adverte a não cairmos nessa heresia.

"Depreende-se facilmente que por certo aqui não se deve entender natureza como foi criada por Deus; antes, como foi corrompida em Adão, pois que estaria muito longe de ser procedente que Deus se fizesse o autor da morte." (2.1.6, p.22)

Há um outro problema comum quando se trata desse tema, a respeito da transmissão hereditária dessa corrupção. Muito debateu-se sobre como essa depravação é passada aos descendentes. Calvino dá uma resposta simples para o assunto - Deus revogou os dons que havia dado ao homem, e isso nos basta saber.

"A nós nos convém estar contentes com isto: haver o Senhor depositado em Adão aqueles dotes que quis conferir à natureza humana. Portanto, quando perdeu os dotes recebidos, aquele os perdeu, não apenas por si só, mas também por todos nós." (2.1.7, p.22)

Por fim, o reformador volta a atacar a heresia pelagiana, que ensinava que existe uma transmissão da pureza de pais regenerados para seus descendentes, livrando-os assim da corrupção humana. Essa idéia não tem base bíblica e nem mesmo os pais da igreja a apoiavam.

"Ora, não descendem da regeneração espiritual, mas da geração carnal. Daí, como diz Agostinho: 'Quer um infiel culposo, quer um fiel inculpável, um e outro não gera inculpáveis, mas culposos, porque os gera de natureza corrupta'... Pois, a culposidade provém da própria natureza; a santificação, contudo, procede da graça supernatural." (2.1.7, p.22s)

Deixemos a Bíblia falar mais alto que nosso orgulho e vãs especulações. Que a igreja abandone o pelagianismo que abraçou e volte-se novamente para essa maravilha graça sobrenatural!
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